Em entrevista ao podcast Ponto a Ponto, do Maringá Post, o prefeito de Maringá comenta o impacto das redes sociais na gestão municipal, fala sobre transporte coletivo, avanços na saúde e sobre o que considera uma “missão divina” à frente do seu terceiro mandato.
Doze anos após deixar o comando da prefeitura, Silvio Barros reassumiu a administração de Maringá em janeiro deste ano, após vencer as eleições ainda no primeiro turno. Ele admite que a cidade que reencontrou é muito diferente da que governou entre 2005 e 2012.
“Quando assumi pela primeira vez, a rede social do momento era o Orkut. Não existiam Facebook, Instagram nem YouTube. Hoje, as redes mudaram completamente tudo: a comunicação, a forma de governar e até o ritmo das respostas”, afirmou.
A pressão e o aprendizado das redes
Barros reconhece que as redes sociais se tornaram, ao mesmo tempo, ferramentas e desafios para a administração pública. “Elas não determinam nossas decisões, mas influenciam na rapidez das respostas”, observou. Segundo ele, o efeito é imediato: “As redes forçam a priorizar determinados assuntos, mesmo que não estivessem inicialmente na pauta”.
Um exemplo citado por ele foi o episódio de pais que dormiram em frente às escolas para garantir vagas para os filhos. “O 156 não funcionava à noite. Só tomei conhecimento da situação porque as pessoas postaram nas redes. Fui pessoalmente até o local para entender o que estava acontecendo”, relatou.
Mesmo assim, o prefeito faz um alerta sobre a manipulação digital. “Nem sempre sabemos quem está por trás de uma conta. Existem perfis falsos e enquetes tendenciosas. É preciso ter cuidado para não governar reagindo a impulsos virtuais”, ponderou.
Primeiros desafios
Os meses iniciais do mandato não foram tranquilos. Silvio Barros enfrentou, logo de início, a crise na casa-abrigo para crianças e a paralisação dos motoristas do transporte coletivo.
“O abrigo era uma granada com o pino já removido. Era apenas uma questão de tempo até explodir”, comentou, referindo-se às irregularidades apontadas pelo Ministério Público. A solução encontrada foi a terceirização do serviço, processo que já está em curso.
Sobre a greve do transporte, Barros reconheceu a legitimidade das reivindicações, mas lembrou das restrições orçamentárias. “A tarifa técnica está próxima de oito reais, mas o usuário paga R$ 5,20. Essa diferença é coberta pela prefeitura. Qualquer novo custo — como plano de saúde ou mudança na jornada — sai do bolso do contribuinte”, destacou.
Repensar o transporte coletivo
Com a normalização da rotina administrativa, o prefeito afirma que será inevitável rever o modelo atual de transporte coletivo.
“O sistema não se sustenta mais. A pandemia acelerou as mudanças: o uso de aplicativos e o novo comportamento dos passageiros comprometeram a base econômica do modelo”, explicou.
Barros reconhece que algumas linhas são deficitárias, mas garante que a discussão será feita com transparência. “Politicamente é desgastante mexer nisso, mas é necessário ter coragem. Enquanto houver linhas que circulam quase vazias, o custo continuará aumentando”, avaliou.
Entre as possíveis soluções, ele menciona a criação de linhas expressas entre bairros e centro, o uso de rotas dinâmicas com apoio tecnológico e o incentivo a modais alternativos, como bicicletas e patinetes elétricos.
“É mais seguro andar de bicicleta elétrica na ciclovia do que de moto na rua. Precisamos enxergar a mobilidade de forma integrada”, defendeu.
Ciclovias e revisão do PlanMob
Segundo Barros, a mobilidade ativa é prioridade, mas deve seguir etapas: “Primeiro, vamos recuperar as ciclovias existentes, que estão deterioradas, e depois ampliar. Eu mesmo utilizo e sei que há trechos em que é mais seguro pedalar na rua do que nelas”.
A ciclovia da Avenida Tuiuti, financiada com apoio da Itaipu Binacional, deve ser concluída em breve. Na sequência, o foco será a atualização do PlanMob, o plano de mobilidade urbana de Maringá. “Alguns pontos já não fazem sentido. O contorno sul, por exemplo, foi projetado para limite de 50 km/h, o que não condiz com a nova configuração da via duplicada”, explicou.
Governança colaborativa e captação de recursos
Outro destaque da entrevista foi o modelo de governança colaborativa — cooperação entre poder público e sociedade civil — que Barros considera uma das marcas de Maringá.
“Projetos sustentáveis e com apoio da comunidade são inquestionáveis. Eles fortalecem a captação de recursos externos, porque vêm com o selo da sociedade”, disse.
O contorno sul, orçado em mais de R$ 400 milhões, é um exemplo, segundo o prefeito: “O governador compreendeu que é uma via de interesse estadual. O investimento é do governo do Paraná, e isso mostra como uma cidade bem organizada consegue apoio para grandes obras”.
Silvio resume sua filosofia de gestão: “Para bons projetos, o dinheiro nunca falta”.
A força da sociedade civil
O prefeito também ressaltou a importância da participação da sociedade civil em obras estratégicas. Um caso recente é o da ampliação do aeroporto regional, cujo projeto técnico foi financiado por empresários e entidades locais, com forte apoio da ACIM (Associação Comercial e Empresarial de Maringá).
“Tínhamos o recurso federal, mas não havia tempo hábil para licitar o projeto. As entidades compreenderam o momento e arrecadaram R$ 600 mil em poucos dias”, relatou.
A mesma parceria, segundo ele, está sendo utilizada em intervenções nas entradas de Paiçandu e Paranavaí, permitindo que obras saiam do papel mais rapidamente. “Essa relação precisa ser recíproca. Quando eles precisam da prefeitura, também temos que estar presentes. É assim que a cidade avança”, afirmou.
População em situação de rua
Ao comentar sobre a população em situação de rua, Barros defendeu uma postura técnica e sem exploração política.
“Não queremos fazer mídia em cima de um problema social tão sério. Estamos tratando de pessoas”, destacou.
Ele mencionou a criação de uma comissão coordenada pela vice-prefeita Sandra Jacovós, que reúne igrejas, casas de recuperação, o albergue municipal, vereadores e representantes da sociedade civil.
“É uma questão complexa. Precisamos compreender suas origens, identificar quais instituições realmente apresentam bons índices de recuperação e entender o porquê. A prefeitura sozinha não consegue resolver. É uma ação que exige empatia e estratégia”, avaliou.
Avanços na saúde e reconhecimento nacional
Se há uma área que empolga o prefeito, é a saúde. Maringá foi escolhida como cidade-piloto do programa nacional Agora tem Especialistas, do Ministério da Saúde.
“Nenhum governo entrega um projeto piloto para quem pode falhar. Isso mostra a confiança na nossa equipe”, comemorou.
Ele destacou o trabalho do secretário de Saúde, Antonio Nardi, o apoio do irmão e deputado Ricardo Barros e do governador Ratinho Junior.
“O ministro Padilha veio a Maringá uma semana após assumir o cargo. Trouxe recursos e garantiu mais de três mil consultas logo no primeiro mês. Isso é resultado de articulação e credibilidade”, afirmou.
Missão, fé e rotina pessoal
Silvio Barros atribui boa parte de sua energia à fé. “Não acredito em coincidências, acredito em providência. Não estou na prefeitura por vontade própria, mas porque compreendi que há uma missão”, disse.
Ele relembra sua decisão de retornar à política: “Fiz a mesma oração de Jesus — ‘Se for possível, passa de mim esse cálice’. Eu estava bem, viajando o mundo, trabalhando com a ONU e o Sebrae. Mas percebi que era hora de aplicar em Maringá tudo o que aprendi fora”.
A rotina, confessa, é intensa, mas organizada. “Faço academia às cinco e meia da manhã, três vezes por semana. O sábado é sagrado e o domingo é de trabalho. Enquanto for missão, sigo firme”.
A esposa, Bernadete Barros, participa ativamente da gestão e incentiva o voluntariado. O filho, Matheus Barros, engenheiro, atua na Secretaria de Urbanismo e Habitação (Seurbh) com projetos de inovação. “Ele conheceu o que há de mais moderno em planejamento urbano e está trazendo ideias que vão colocar Maringá no mapa”, afirmou o prefeito.
Olhar para o futuro
No encerramento da entrevista, Barros reconheceu que o primeiro semestre foi marcado por ajustes internos e pela solução de pendências herdadas, o que retardou o ritmo da gestão.
“A velocidade foi menor do que eu esperava, mas 2026 será o primeiro ano com orçamento elaborado pela nossa equipe. Aí, sim, poderemos cumprir os compromissos e ir além”, afirmou.
Ele concluiu com otimismo: “Nós vamos entregar — e mais do que prometemos. Tenho plena confiança nisso. Tudo o que fazemos é pelo bem da cidade. E isso está 100% dentro de nós”.







