Presidente do Secovi Noroeste detalha como a sociedade civil influencia o desenvolvimento maringaense, comenta o ritmo acelerado de crescimento da região e aponta por que Maringá precisa repensar seu centro, a mobilidade e o planejamento urbano para os próximos anos.
Maringá se orgulha da fama de ser “diferente” — e quem vive na cidade repete essa ideia quase como uma identidade local. Para Marco Tadeu Barbosa, presidente do Secovi Noroeste e ex-presidente da ACIM e da FACIAP, essa percepção tem fundamento. Ele afirma que existe um comportamento marcante na cultura maringaense: a sociedade civil não espera a ação do Estado; ela se antecipa.
Em entrevista ao jornalista Ronaldo Nezo, no podcast Ponto a Ponto, Marco analisou esse traço da comunidade, avaliou o crescimento da cidade, discutiu o mercado imobiliário e apontou os desafios urbanísticos para o futuro. O episódio foi ao ar neste domingo (30) e o Maringá Post resume aqui as ideias principais.
“Em Maringá, a sociedade assume funções que seriam do poder público”
Um dos temas centrais da conversa é o protagonismo da sociedade civil na construção da cidade. Marco cita casos emblemáticos como o Observatório Social de Maringá, o Conseg e o Codem, responsáveis por iniciativas de planejamento estratégico e projetos estruturais.
Ele relembra a articulação que permitiu a criação do Departamento Antidrogas da Polícia Federal na cidade. “Havia verba federal, mas não existia recurso para o projeto técnico. A sociedade se mobilizou, financiou o projeto e viabilizou a licitação. Isso é muito Maringá.”
A lógica se repetiu na implementação da Esfaep, no desenvolvimento do Masterplan — estudo internacional pago pela iniciativa privada que definiu metas para Maringá até 2047 — e em diversas ações de segurança e infraestrutura.
Uma cidade concebida para 250 mil habitantes e que já ultrapassa 600 mil na região
Marco alerta que a Maringá atual é muito diferente da cidade planejada na década de 1940.
“Maringá foi projetada para 250 mil habitantes. Hoje já são mais de 450 mil. Somando Sarandi, Paiçandu e Marialva, chegamos perto dos 600 mil.”
Esse salto populacional gera desafios em diversas frentes: mobilidade saturada, limitações do crescimento horizontal, surgimento de novas centralidades, necessidade de integração metropolitana e maior pressão sobre saúde, educação e segurança. Ele cita exemplos como o gargalo histórico no trevo de Sarandi, as intervenções no antigo Contorno Sul e a dificuldade de desenvolver a Zona Sul como polo industrial enquanto a maioria dos trabalhadores está na Zona Norte.
Imóveis antigos: recuperar, demolir ou simplesmente deixar abandonado?
Um ponto de destaque da entrevista é o comportamento brasileiro em relação a edificações antigas. Marco compara três posturas culturais:
- Europa: restaura;
- Estados Unidos: reconstrói;
- Brasil: abandona.
“O brasileiro abandona o centro e corre para áreas novas. E, quando isso acontece, os centros ficam envelhecidos e vulneráveis.”
Ele reforça que cidades como Curitiba e São Paulo já vivem esse processo intensamente — e que Maringá, por ser jovem, ainda pode agir a tempo, investindo em revitalização, retrofit e políticas mais inteligentes.
Um centro que precisa ser reinventado
Entre os trechos mais contundentes, Marco fala da necessidade de requalificar o centro de Maringá, especialmente a avenida Getúlio Vargas, onde morou.
“Hoje você vê muitos comércios fechados. As dinâmicas mudaram. Shopping cresceu, o digital ganhou espaço, bancos reduziram agências. A Getúlio perdeu vitalidade.”
Ele defende intervenções que priorizem a vida urbana, inspiradas em modelos de sucesso como o calçadão da XV de Novembro, em Curitiba, ou projetos de Bilbao e São Francisco.
“Primeiro vêm as pessoas. Com movimento, o comércio volta. A Getúlio tem potencial para isso.”
Eurogarden e a transformação silenciosa de um setor inteiro da cidade
Marco também destaca o impacto de projetos urbanísticos como o Eurogarden, liderado pela família Nogaroli.
“Se o objetivo fosse apenas lucrar, teriam loteado e vendido tudo. Mas o Jefferson tinha uma visão de legado para a cidade.”
Ele cita características marcantes: fiação subterrânea, áreas verdes, vias planejadas, segurança, infraestrutura de alto padrão e o conceito de bairro integrado — morar, trabalhar, estudar e se divertir no mesmo lugar. O projeto, segundo ele, elevou o patamar urbanístico da cidade e influenciou empreendimentos como o Ecogarden e o Aruna.
Condomínios antigos, síndicos sobrecarregados e os desafios da gestão condominial
Ao comentar os condomínios mais antigos, Marco é objetivo:
“Eles acabam sendo mais caros, e isso prejudica venda e locação. A manutenção é pesada e falta estrutura tecnológica.”
Ele faz uma observação bem-humorada: “Maringá merecia uma estátua para o síndico. Ele trabalha sábado, domingo e feriado.”
O Secovi, segundo ele, tem investido na capacitação de síndicos, porteiros e zeladores e oferece assessoria jurídica gratuita — inclusive para condomínios que não contribuem com o sindicato.
O sindicato que precisa ser relevante para existir
Marco analisa ainda o impacto do fim da contribuição sindical obrigatória.
“Sou totalmente favorável que não seja obrigatório. O sindicato só sobrevive se for útil. Precisa entregar valor.”
Ele explica que o Secovi trabalha com o princípio de servir primeiro e arrecadar depois, oferecendo cursos, suporte jurídico e iniciativas sociais, com apoio do SecoviMed.
Mercado imobiliário e perspectivas para Maringá
Apesar do bom momento do setor, Marco lembra que a classe média enfrenta juros altos, o que limita parte das compras. Mesmo assim, ele reforça:
“Maringá continua crescendo porque tem renda, educação e serviços fortes. É uma cidade vocacionada para prosperar.”
A entrevista é, no fim, uma reflexão sobre o espírito maringaense: planejamento, ação coletiva e visão empreendedora.
O episódio do Ponto a Ponto está disponível desde este domingo (30) no canal do Maringá Post no YouTube — uma oportunidade para entender por que Maringá se tornou referência nacional em desenvolvimento urbano e participação social.







