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Mercado cripto transforma profissões e amplia demanda por profissionais híbridos no Brasil

O avanço do mercado de criptoativos no Brasil está provocando uma mudança que vai além do surgimento de novas carreiras ligadas à blockchain. Com a institucionalização do setor e o avanço da regulamentação, profissionais de áreas tradicionais passam a incorporar conhecimentos sobre ativos digitais, tokenização, stablecoins, custódia e contratos inteligentes às suas atividades. O movimento ganha força  à medida que novas regras aproximam o universo cripto das estruturas tradicionais do mercado financeiro.Nos primeiros anos do Bitcoin e da tecnologia blockchain, as oportunidades profissionais estavam concentradas principalmente em desenvolvimento de software, criptografia, mineração e negociação de ativos. Esse cenário se ampliou. Bancos, empresas financeiras, escritórios jurídicos, companhias de tecnologia, órgãos reguladores e outras organizações passaram a lidar diretamente com a economia de ativos digitais.

“Durante muito tempo, o mercado cripto foi associado quase exclusivamente a profissionais de tecnologia e negociação de ativos. Essa realidade mudou. Hoje, blockchain e ativos digitais já fazem parte das discussões de bancos, escritórios jurídicos, áreas de compliance, empresas de tecnologia e instituições financeiras. Isso amplia o mercado e, principalmente, exige que profissionais de diferentes formações desenvolvam novas competências”, afirma Cleverson Pereira, head educacional e criador da AVO (Aprendizado Virtual Online).

No Brasil, o processo ganhou uma base regulatória com a Lei nº 14.478/2022, que estabeleceu diretrizes para a prestação de serviços de ativos virtuais. Posteriormente, o Banco Central avançou na regulamentação do setor, incluindo regras para constituição e funcionamento das Sociedades Prestadoras de Serviços de Ativos Virtuais (SPSVAs) e novas exigências prudenciais em 2026. A consequência para o mercado de trabalho é a ampliação da demanda para além das funções essencialmente tecnológicas.

Direito, compliance, finanças e tecnologia incorporam competências em criptoativos

Entre as áreas impactadas estão desenvolvimento de software, cibersegurança, direito, compliance, contabilidade e auditoria, finanças, gestão de riscos, análise de dados, marketing, comunicação e gestão de produtos. Em vez de necessariamente substituir essas profissões, o mercado cripto tende a acrescentar novas competências às funções que já existem.

Advogados, por exemplo, passam a lidar com regulação de ativos digitais, tokenização e contratos inteligentes. Contadores e auditores precisam compreender operações com criptoativos e registros on-chain. Profissionais de finanças encontram stablecoins, custódia e mercados digitais em sua rotina, enquanto especialistas em compliance ganham novas atribuições relacionadas a AML/KYC, monitoramento de transações em blockchain e prevenção a crimes financeiros.

“Estamos entrando em uma etapa em que entender cripto deixa de ser uma competência restrita ao profissional de tecnologia. O advogado continua sendo advogado, o contador continua sendo contador e o profissional de compliance continua atuando em sua especialidade, mas todos começam a precisar compreender como blockchain e ativos digitais interferem em suas áreas”, avalia afirma Pedro Torres, Head Jurídico da OnilX.

Stablecoins ampliam impacto dos ativos digitais no mercado brasileiro

Um dos indicadores da dimensão alcançada pelo setor está nas stablecoins. Segundo dados da Receita Federal citados na pesquisa, elas representam aproximadamente 80% do volume declarado de criptoativos no Brasil. As operações realizadas desde julho de 2026 também passaram a integrar o sistema DeCripto, alinhado ao Crypto-Asset Reporting Framework (CARF), da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

O avanço aumenta a necessidade de conhecimento especializado em áreas como tributação, contabilidade, compliance, tecnologia e análise financeira. Na prática, o domínio de ativos digitais começa a deixar de ser uma especialização isolada para funcionar como competência complementar dentro de profissões tradicionais.

“Quando ativos digitais entram de forma mais estruturada nas empresas e no sistema financeiro, surge a necessidade de profissionais capazes de conectar esse universo às disciplinas que já dominam. É nesse ponto que formação e atualização profissional ganham relevância, porque não basta conhecer blockchain isoladamente; é preciso entender sua aplicação dentro de cada área”, esclarece Pereira.

Tokenização reforça tendência do profissional híbrido

A tokenização também aparece como um dos vetores dessa transformação. O conceito envolve a representação digital de direitos ou ativos por meio de tecnologias de registro distribuído e aproxima a infraestrutura blockchain de segmentos tradicionais como bancos, corretoras, fundos, seguradoras e mercados de capitais. Nesse cenário, três movimentos profissionais acontecem paralelamente: surgem funções específicas, como blockchain developer, smart contract auditor, protocol engineer e especialistas em blockchain analytics; profissões tradicionais incorporam competências relacionadas a ativos digitais; e ganha espaço o chamado profissional híbrido, capaz de combinar sua formação original com conhecimento em blockchain e criptoativos.

Essa combinação pode aparecer em diferentes frentes: finanças e blockchain, direito e blockchain, compliance e blockchain, dados e blockchain, inteligência artificial e blockchain, cibersegurança e blockchain, além de comunicação e blockchain. A tendência desloca o debate sobre “profissões do futuro” para uma questão mais imediata: quais competências profissionais precisam ser atualizadas diante da integração dos ativos digitais à economia tradicional.

“O mercado cripto não está apenas criando cargos com novos nomes. Ele está redesenhando competências de carreiras que já existem. Para o profissional, isso significa que a especialização pode acontecer na interseção entre sua área de formação e a economia dos ativos digitais”, conclui o head educacional e criador da AVO